06/07/2017

A MATERNIDADE REAL: GESTAÇÃO, PARTO E CONVIVÊNCIA SEM ROMANTIZAÇÃO

A mãe é a mulher mais importante de nossas vidas. A primeira mulher que um homem ama, a primeira mulher que uma filha admira – ou rejeita. A mãe é a referência do que é ser mulher para filhos e filhas. Em volta dela, de suas qualidades e poderes, problemas e limites, se constrói a realidade existencial de uma criança.

Muito peso é posto, portanto, sobre os ombros desse pobre ser humano de sexo feminino, mas a psicanálise já demonstrou sua enorme influência na vida de cada um de nós e basta que olhemos para dentro de nós mesmos e para nossa mãe e o que ela nos deixou (de bom e de ruim) para confirmar esse fato: mães nos permeiam, moldam, amaldiçoam ou abençoam. Vale a pena, portanto, compreender melhor a realidade da maternidade, suas luzes e sombras.

A primeira coisa que vem à mente quando pensamos na palavra “mãe” é a imagem de uma mulher sorridente, bondosa, generosa, disponível, atenta, presente, nutridora, alegre, protetora e acalentadora. Para quem não sabe, essa é a descrição do arquétipo materno positivo, da Grande Mãe, um concentrado da linfa vital do que é ser mãe destilado ao longo das inúmeras gerações de mulheres-mães por toda história humana – e, provavelmente, biológica, já que nosso ser mamífero nos coloca como descendentes (nem sempre dignos) dos animais. Portanto, a descrição acima é a da mãe ideal, daquela mãe que toda criança gostaria de ter, que toda criança nasce esperando (inconscientemente) encontrar, no sentido de que há uma expectativa instintiva que vem antes mesmo do desejo do ego (pois o bebê não teria condição de ter esse tipo de desejo). Ao nascer, portanto, a cria humana carrega em si a expectativa de ser acolhida por uma mãe que irá prover todas as suas necessidades, expectativa mais do que natural, uma vez que sem uma cuidadora o bebê iria morrer. Sua vida está garantida somente pela presença de uma Mãe (ou de quem a substitui).

Imaginem o que é nascer, frágeis e totalmente vulneráveis. Conseguem lembrar-se de como foi para vocês, já que todos passamos por isso? Imaginem o que deve ser depender completamente de outro ser humano. E encontrar esse acolhimento, esses braços que pegam no colo, esse peito que jorra nutrimento, amor, aconchego, segurança. Quem é esse ser que tudo dá toda vez que precisamos? Para o bebê, esse ser é como uma Deusa: Ela tudo dá, tudo provê, tudo compreende, tudo perdoa, tudo pode, portanto, é onipotente, e sempre está presente (basta chorar que ela aparece) e por isso, também é onipresente. Isso equivale para o bebê a receber amor incondicional. Não é assim que a cristandade entende Deus? Eis, a Mãe.

A essa imagem arquetípica que todos carregamos interiormente a nível inconsciente e que molda nossa vivência da mãe real se referem a publicidade e os livros para crianças.

Os contos de fada apresentam, porém, também o outro lado da Grande Mãe, seu lado sombrio, assustador, devorador, destruidor. Quem tudo pode, dando a vida e o sustento, também tudo pode tirar. O moralismo hipócrita moderno que quer desconsiderar o negativo e que critica os contos de fada como sendo “cruéis” não se dá conta que eles não devem ser lidos como notícias de jornal e, sim, como histórias simbólicas. Instruem e educam a alma infantil para a realidade subjetiva tanto própria como da mãe com quem lidam. Ao terem instrumentos de discernimento e orientação, as crianças podem melhor se vincular ao arquétipo materno positivo, condição indispensável para a vida. Um vínculo sólido com este arquétipo permite aquela estabilidade emocional e confiança na vida que são indispensáveis para o desenvolvimento psicossocial e até físico da criança.

Mas o arquétipo não é a realidade humana. Como dito anteriormente, é o destilado de milhares e milhares de gerações de mães antes de nós. Destilação que deixou para trás as histórias e problemas pessoais para ficar com a essência. Mas a realidade, como bem sabemos, é diferente – pessoas não são deuses e não são arquétipos. Apesar disso, é extremamente difícil se desapegar do ideal para olhar para o real, tanto o da própria mãe como o de nós mesmas como mães. O transe é mais forte do que o real, o desejo pela proteção, amparo, salvação da Grande Mãe continua ao longo dos anos de vida adulta. Afinal, quem não gostaria de ter à disposição uma figura que está sempre pronta a amparar, consolar, encorajar e suportar?

E aqui começa o grande engano de mulheres e homens.

A mulher de hoje, quando se torna mãe, vive uma realidade que podemos chamar de esquizofrênica, dividida como está entre valores, tarefas e objetivos em contradição entre si. O fato dela geralmente não ter consciência do conflito interior mantém a esquizofrenia em vida e o preço que ela paga se reflete tanto em sua saúde mental e emocional como em sua relação com filhos e marido. O que faz com que ela mantenha a loucura em andamento, sem (querer) tomar consciência dela (e encarar a contradição interior), é o sentimento de culpa. Este faz com que ela mantenha a crença (pia e abstrata) e queira ser (ingenua e masoquisticamente) aquilo que, está convencida, os outros exigem (tiranicamente) dela, ou seja: a encarnação mais fiel da Grande Mãe.

Vejamos como surgiu essa cruz na qual a mulher-mãe de hoje está pregada sem saber como descer (... ou ascender!) dela.

Em sua realidade de cidadã urbana e trabalhadora, a mulher se afirmou na sociedade e no mercado de trabalho. Esse processo começou com o movimento feminista dos anos 60 que conquistou o direito da mulher ao trabalho e ao estudo. Esses âmbitos eram (e continuam sendo) criados por homens e configurados ao redor de valores masculinos. Portanto, ao penetrar nesse reduto, as mulheres tiveram que se transformar em “homens de saias”. Este foi o preço para fazer parte do mundo do trabalho que nunca incluiu, ou mesmo se preocupou, com maternidade (e paternidade!), bebês, cuidados, amamentação, dor de barriga de filhos, escolinha e tarefas – como também não inclui empatia.

A suavidade e redondeza que está nos gestos e atitudes de uma mãe tiveram que ser camuflados ou até mesmo sobrepujados pela dureza e carapuça que a sociedade lá fora requer de uma mulher para que ela subsista e se realize profissionalmente. Ela precisa esconder sua “fragilidade”. Com “fragilidade” o sistema masculino da sociedade capitalista identifica aquela delicadeza de percepção, de sentimento e de postura diante do outro e da vida que é a sensibilidade.

Por outro lado, a propaganda enganosa da mídia aposta no transe que o arquétipo da Grande Mãe evoca universalmente ao investir em retratos de mulheres que estão sempre bem maquiadas, sorridentes, descansadas e elegantes com bebês na barriga ou no colo e que se divertem, despreocupadas, comprando esse produto ou aquele.

E não é de se esquecer o marido, pois a mãe ideal é também a esposa ideal. Logo, em suas postagens na mídia social e em suas relações sociais, as mulheres reais imitam esses retratos da mídia e se mostram, com bebê na barriga ou no colo, também sensuais e cativantes, numa  improvável e desumana disponibilidade sexual. Sua realidade como sujeitos humanos que vivem uma tripla jornada de trabalho que lhes tira o sono, a saúde e a alegria não é reconhecida. Quando mencionada é tachada como “egoísmo”, afundando a mulher-mãe num poço sem fim de culpa e vitimismo, ou raiva sufocada.

Aprisionada, por um lado, à lei impiedosa da produção (de dinheiro) e a seu corolário alienante do consumismo desenfreado, e, por outro, à obrigação de servir os entes queridos, a mulher perde aquela independência e autoestima que um pouco de feminismo, com suas conquistas sociais e profissionais, havia lhe garantido.

Acrescenta-se a esta situação a muito comum a realidade de um casamento insatisfatório. A grande maioria dos homens está ainda distante de assumir a paternidade ativa e consciente, portanto, delegam frequentemente à mulher as tarefas com os bebês e só se sentem “úteis” quando se trata de brincar. E eis que os pais se tornam coleguinhas de brincadeira de seus filhos enquanto as mães mantêm a direção da casa, sendo as responsáveis por rotinas, horários, necessidades, alimentação, sono, etc. Como companheiros, raros são aqueles homens que sabem dar o ombro às suas esposas, ampará-las, ajudá-las e dar-lhes suporte. No lugar disso, encontramos ainda muita cobrança e, tristemente, competição com os próprios filhos, porque não é incomum que os maridos se sintam postos de lado uma vez que suas mulheres se dedicam ao filho...

Como podemos ver, por todo lado, a cruz que a mulher continua carregando, apesar das conquistas sociais, é o de ser mãe. Tanto em sua relação com o homem como com os filhos, ela está pregada à imitação da Grande Mãe. Sua função materna está moldada no ideal, um ideal inalcançável. Seu ser mãe não se identifica tanto com o papel de educadora e promotora do desenvolvimento da criança, mas com o de quem existe para satisfazer todas as necessidades imediatas dos membros da (amada) família. Amar, nesse transe coletivo, significa estar à disposição do outro.

Esse papel é desumano e impossível de realizar satisfatoriamente, e se sustenta ao preço de sempre mais dor feminina e familiar. Baste ver o drama de tantas mulheres em suas crises do pós-parto, chamadas de “depressão” e “baby blues”, em seus conflitos de casal, em suas dúvidas existenciais sobre o que fazer com os filhos, o trabalho, as ambições, o futuro, o dinheiro, a violência nas ruas, a incerteza dos valores...

Por estarem tomadas por tantos questionamentos sem respostas, as mulheres se apresentam contraditórias, tímidas ou chorosas, agressivas ou alienadas. E eis que são chamadas de “loucas” por seus maridos, companheiros e familiares. Quantas mulheres não passam por crises de autoagressão e histeria no início de sua maternidade?

Diz o ditado popular das culturas pré-industriais que “É preciso de uma vila para criar uma criança”. Cadê a vila?

As mães estão só.

O que fazer da maternidade nesses tempos? Ou as mulheres delegam os cuidados dos filhos a outros, o que significa, muitas vezes, terceirizar a criação e, assim fazendo, se alienar de seu próprio sentimento materno, ou abraçam a maternidade, como tantas mulheres do movimento pela humanização do parto e nascimento estão fazendo, e aí se depararma com o caos, a contradição, a dor, o desespero, a solidão... mas também a solidariedade de outras mulheres, a criação com apego, a volta a uma economia artesã, à criatividade e invenção cotidiana de novos modos de estar, de sobreviver, de cuidar dos filhos. Filhos estes que navegam numa realidade diferente daquelas de muitas outras crianças, pois acompanham suas mães em estágios universitários e locais de trabalho, devem aprender a conviver com o mundo dos adultos desde cedo, observando a labuta de suas mães e quem sabe, aprendendo a ser parceiros.

Estas mulheres estão criando um novo conceito de maternidade ativa. Fazendo das tripas coração, se aventuram a cada dia num mundo hostil buscando preservar sua dignidade materna e o respeito por si e de seus filhos.

Este percurso corajoso e destemido nasce quando a mulher grávida se conecta consigo e sente como quer parir. Ela escolhe, conscientemente. Ela nutre sua maternidade embrional ao vincular-se com ela desde o início, reconhecendo-a, fazendo espaço para ela, brigando com os limites de tempo, de trabalho, de relação, de atividades que barram e sabotam sua relação com seu corpo e a nova vida crescendo dentro dela.

É inevitável que assim seja, pois seu mundo de antes não incluía o bebê, a gravidez, a maternidade. Sua inteira realidade precisa, portanto, ser reconfigurada, e a mulher grávida consciente e disposta se prontifica a esse trabalho; reinventar seu mundo. Aos poucos, sem pressa; ao longo de nove meses.

O quartinho do bebê, as roupinhas e os “brinquedinhos” são e deveriam ser secundários. Bebês são simples e precisam de poucos bens materiais, mas muita presença, paciência, disponibilidade. A maternidade toma forma, em primeiro lugar, dentro da mulher, no invisível e, entretanto, muito real, muito interior dela. É aqui que começa tudo. É este aspecto que tantas mulheres desconsideram e, entram, assim, despreparadas na maternidade. É essa falha de preparo interior que produz tanta “distócia” durante o parto, tanta complicação, atraso, antecipação, riscos, sustos.

Isso acontece porque a mulher, seu companheiro e família estão cegos pelo transe da maternidade-propaganda, a fingida realidade ideal que camufla a verdadeira intenção de quem a promove: fomentar o consumo, com o lucro de uns e a alienação de outros, de outras. Gravidez é relação íntima. Quanto melhor for essa relação, melhor será o parto. Gravidez é também gestar uma nova identidade feminina, novos ritmos, rotinas, prioridades. Permitir-se esse processo facilita o depois.

Quanto mais a mulher for verdadeira consigo, mais longe estará do transe coletivo e das modas, e mais descomplicada será sua maternidade, mas nem por isso mais fáceis seus relacionamentos. Nesse caso, a esquizofrenia se transforma em consciente luta para garantir-se respeito e espaço para si e seu bebê. Espaço físico, mental, emocional, social. Espaço profissional e financeiro. Uma mãe precisa pensar em tudo isso. A realidade é intensa e séria.

Maternidade é estar descabelada e com olheiras, cansada, mas feliz, ou exausta e chorando por falta de sono. Maternidade é olhar para um bebê com olhos apaixonados, a barrigona ainda da gestação caída sobre o púbis e a mente completamente distraída de todos os padrões de beleza estereotipados. Maternidade é estar suja de baba de bebê, leite materno seco e restos de comida. Maternidade é ter pernas inchadas e meias elásticas. Seios fartos e pesados, duros de tanto leite, doloridos e desconfortáveis. Maternidade é se sentir sugada pelo bebê que não para nunca de mamar. Parece que a alma é levada junto ao “sangue branco”.  Maternidade é aguentar isso tudo com orgulho e força moral inabalável porque amamos. Assumimos nosso lugar e o assumimos realisticamente, sabendo que dura um tempo e a cada nova etapa de desenvolvimento do bebê precisamos nos reinventar como mães e reinterpretar o real.

E quanto mais nos fincamos em nossa missão, maior é a força que emerge do fundo do ventre e a lucidez mental diante da crueldade de um sistema que idealiza a maternidade e massacra as mulheres que são discriminadas no trabalho porque são mães, são discriminadas pelas famílias porque querem criar seus filhos, são discriminadas pelas outras mulheres que fizeram escolhas diferentes. E, enfim, torturadas em relacionamentos sentimentais baseados no machismo dele e no sentimento de culpa dela, ou na irresponsabilidade dele e na confusão dela, ou na prepotência dele e na vulnerabilidade financeira, emocional e social dela.

Se por um lado temos, portanto, a idealização da Grande Mãe sempre sorridente, disponível e descansada, por outro temos a idealização da mulher “moderna” que vira mãe e se espera dela que atravesse gestação, parto e puerpério sem manifestar nenhuma real mudança interior, e na expectativa que a rotina volte “ao normal” poucos meses depois do parto. Caso contrário, “ela está com problemas”, “ela é incompetente”, “ela é emotiva, insegura e imatura”. Não se considera a realidade verdadeira feita de hormônios, transformação interior, crescimento, questionamentos, desafios existenciais. A rotina da sociedade capitalista de produção e prazos tem a primazia e precisa continuar intacta, assim como o salário que agora é justificado para comprar bibelôs e tiaras, brincos e sapatinhos para o bebê, fazer a super festa de aniversário, pagar a escolinha, a babá e as comidinhas prontas. Enquanto isso, a dor no peito que surge da alienação materna é engolida a seco, socada para o fundo da alma e lá deixada a embolorar até que... até que os próprios filhos irão trazê-la à tona com seus comportamentos e reações “incompreensíveis”.

Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Ínterprete de Sonhos, Orientadora de Pais, Terapeuta Floral, Consultora, Palestrante e Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente. Consultoria em empresas e serviços de saúde. Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL-USA +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

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