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A SÍNDROME DO INGRATO RANCOROSO. POR QUE FAZER O BEM NEM SEMPRE COMPENSA

Ajudar alguém é natural, já aconteceu a todos de oferecer o ombro para quem precisava desabafar ou de contribuir para resolver problemas grandes ou pequenos. Estas ações haveriam de ser a base das relações humanas. Ajudar por simples empatia, simpatia e generosidade. Fazer o bem é bom, infelizmente, porém, nem sempre o bem provoca uma reação positiva.

Acontece, mais frequentemente do que gostaríamos, que a pessoa que recebeu ajuda desenvolva em si um profundo rancor. Obviamente, esse sentimento permanece inconsciente, ninguém gosta de sentir isso, convenientemente se finge. Mas suas consequências se mostram à luz do dia.

O rancor diante do bom recebido nasce da inveja (ver meu post Fenomenologia da Inveja), não da inveja entendida como admiração para com alguém considerado superior, mas aquela chula, de quem anseia por ter o que o outro tem, e por meios sombrios visa tirar do outro.

O recebedor do bem tem consciência de ter recebido, mas não consegue ser agradecido pelo simples motivo que ele não sustenta o peso da dívida de reconhecimento para com o benfeitor que, portanto, passa a afastar. Eis o ingrato rancoroso. Além disso, para dar suporte à sua armação fantasiosa, inventa histórias com o intuito de caluniar e difamar seu benfeitor.

Esta é a “sindrome rancorosa do beneficiado” que pode se apresentar em quatro formatos, todos desagradáveis e envenenados.

1) O beneficiado vingativo. Assim que você lhe faz um favor, ele se volta contra você como se você fosse seu pior inimigo. Não somente você será eliminado de sua lista de amizades, como ele envolverá mais amigos em comum possível para torná-los cientes do fato ocorrido (contado do jeito dele, claro), criando alianças para diminuir o que você fez. As frases típicas do vingativo são: "Não lhe pedi nada!’’; "Se ele queria me fazer pesar era melhor que não fizesse nada.”

2) O beneficiado oportunista. Este irá ficar em cima de você até não obter tudo, mas realmente tudo, o que você tem a dar. Normalmente, nas primeiras fases demonstrará uma certa gratidão, que irá, porém, diminuindo virar a situação sobre o benfeitor ao contrário: ele vai fazer com que você ache que não está fazendo o suficiente. Esta é uma situação comum entre parceiros. Sua ingratidão consiste em fazer você se sentir culpado.

3) O beneficiado espertalhão. Este vai fazer com que você lhe faça favores  (inclusive grandes) como se nada fosse. Se, por exemplo, ele lhe pedir para lhe prestar $ 5,000.00, o fará com extrema tranquilidade e leveza: "Vai, o que são $ 5,000...". O beneficiado espertalhão é normalmente um grande manipulador. A sua ingratidão consiste em lhe diminuir. No final, você vai acreditar que $ 5,000 são realmente poucos e que você é sortudo em poder ajudar.

4) O beneficiado apaixonado. Esta é uma esfera delicada. O beneficiado apaixonado é um mendigo, mas de sentimentos. Ele precisa da sua aprovação e de suas atenções 24h por dia, sem pausa. Raramente saberá devolver, mas não espere muito: a sua ingratidão se manifesta na frustração que ele criará em você por nunca poderá preencher todo seu vazio, suas carências.

O que fazer diante de um ingrato desses? Uma vez que já fizemos o favor, se tiver sido uma experiência boa para nós, no sentido que aprendemos algo, que nossa alma está mais leve, fiquemos de bem conosco e esqueçamos o recebedor. Entretanto, precisamos também aprender uma lição de olho na responsabilidade que todos tempos na construção de um mundo melhor. Da próxima vez, agucemos a vista e os neurônios para saber quem merece a nossa ajuda, ou seja, quem vai devolver se não a nós, ao universo, o bem recebido.
   

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, inteprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321 www.adrianatanesenogueira.org

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