03/09/2017

QUAL PRINCESA VOCÊ É? AS TRÊS PRINCESAS E SUAS SOMBRAS

Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida: as três princesas que toda menina idealiza. Uma é boa, a outra é submissa e a terceira é ingênua (o modelo perfeito de mulher na sociedade patriarcal, não é?). E todas elas são perseguidas por uma figura feminina mais velha e má.

No primeiro caso, a madrasta é invejosa e seu veneno é tamanho que paralisa sua vítima ao ponto dela parecer morta. No segundo, a pseudo-mãe é uma mulher sem coração e maltrata a pobre moça fazendo-a trabalhar como uma escrava. No terceiro, a bruxa má se vinga por ter sido excluída da vida da jovem e a prende no mundo dos sonhos.

Temos uma princesa boazinha e servil (Branca de Neve), outra trabalhadora e humilde (Cinderela), e uma terceira que vive no mundo das nuvens. Qual é a sua? Com qual você se identifica?

Branca de Neve representa a mulher cuja identidade se alicerça no ser boa. ("Curiosamente", ou melhor, nada por acaso, a bondade é um valor mais feminino do que masculino. Ecoa aqui todo o condicionamento cristão ao qual a mulher foi submetida por séculos.) Sendo boa, ela é também servil, sempre pronta a ajudar os outros. Naturalmente, ela é tomada de surpresa pela falta de consideração e abuso dos outros diante de sua disponibilidade. Mas ela continua sendo boa, porque esta é mais do que uma opção, é motivo de orgulho e, na verdade, é uma exigência interior oriunda de profundezas que ela não ousa investigar.

Cinderela representa a mulher cujo comportamento revela a crença que ela não é merecedora (de dinheiro, respeito, reconhecimento, liberdade, etc.). Ela nasceu para sofrer. Por isso, trabalha muito, faz além do que suas obrigações exigem e além do que seu corpo aguenta. Ela se sacrifica pelos outros, esgotando-se por anos a fio numa vida árdua. Mas persevera, tendo somente sua laboriosidade e capacidade de aguentar para se orgulhar.

A Bela Adormecida representa aquela mulher que vive no transe de um sonho, uma fantasia, uma quimera. Ela é leve, alegre e esquecida. Sempre jovem, ri de seus esquecimentos, pula de galho em galho e degusta essa espécie de liberdade que vem do não dar importância ao que é geralmente considerado importante, se achando ousada e alternativa por causa disso. 

Nenhuma das três princesas pode, na verdade, ser diferente do modelo, mas cada uma delas esconde uma outra face. Para não encarar esse outro lado elas se mantêm presa ao estereótipo que assumiram. O outro lado é sua sombra, representada exatamente pela madrasta e bruxa que carregam dentro de si nas entrelinhas de sua “princezice”. A donzela, coitadinha e alegre, e a mulher madura, amargurada e má, são aspectos da mesma personagem. Viver de uma metade da moeda é privar-se do poder que a totalidade confere..

Por trás da Branca de Neve encontramos a famigerada Madrasta-Bruxa. Sua inveja é aquela da mulher madura que sofre pelo que perdeu: a juventude fresca e cheia de vida, ingênua e rica em potencialidades da moça. Mas, além disso, há a inveja (sobre a qual escrevi em outro post) relacionada à dor profunda de ver o que outra pessoa é, e é capaz de fazer. Ao mesmo tempo em que a invejosa admira o que a outra é, ela se priva do que anseia porque a inveja é uma admiração ao contrário, é o torcedor que no lugar de apoiar solapa o que o outro tem, diminui o valor que vê brilhando na vida alheia. E isso pelo triste motivo de que, num nível profundo, a invejosa se auto-exclui do mundo que tanto deseja. Assim, a bondade da mulher Branca de Neve é, na verdade, uma forma de fugir do perceber-se bruxa invejosa. Entretanto, assim como os conteúdos não evacuados produzem odores que fogem ao controle da pessoa, assim a inveja suprimida manifesta-se aqui e acola em pequenos gestos, atitudes, olhares, palavras tão "suaves" quando venenosas.

Cinderela vive acorrentada à convicção inconsciente de ter nascido para ser submissa. A vida é sofrimento, vence quem trabalha duro. Uma mulher que se respeita é trabalhadora, e não reclama "à toa", e se reclamar ninguém vai ouvi-la mesmo. As cinderalas andam pelo mundo arrastando uma grande carga, nunca se concedendo repouso e diversão, na crença de que seu mérito consiste em nunca parar. A mulher-Cinderela está sob o efeito do jugo patriarcal imposto diretamente pela mão do feminino patriarcal, principal aliado do poder masculino. Ela representa o lado da mulher moderna que sofre a vida de escrava que leva, mas não ousa questionar, apontar dedos, levantar a voz e mudar as regras do jogo. Afinal, quem é ela para fazer isso...?

A Bela Adormecida encontrou um atalho para ser feliz e evitar de assumir o lado pesado, duro e contraditório da vida. Seu ingresso no mundo já aconteceu num processo de alienação e cisão: a dimensão problemática da existência que está dentro de cada um foi excluída. Mas, seguindo a lei infalível da natureza, o que foi suprimido volta. As consequências da injustiça psicológica cometida é o preço que a Bela paga, que é o de ser uma dondoca que vive na superfície da vida ou uma iludida que se aventura pelo mundo sem perceber o dano que faz a si mesma e aos outros.

As três princesas são salvas pelo príncipe. Quem é o príncipe? Ele é o terceiro, interpondo-se entre a donzela e a madrasta. Sua presença significa o questionamento dos papeis, a reflexão crítica, a saída do mundo só feminino. O 3 – número perfeito por excelência – representa a dialética dos primeiros dois. Na gangorra entre ser “boa” e ser “má”, não há solução. É preciso criar uma síntese para que a mulher reflita de forma crítica e saudável sobre ambas as dimensões e saia e ganhe a autonomia de sujeito protagonista que ela precisa. Somente assim poderá superar as dicotomias boa/má, humilde/arrogante, superficial/deprimida. 

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, inteprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321 www.adrianatanesenogueira.org

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