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PSIQUE E ENCANAMENTO – Quando as emoções não fluem

O sistema psíquico funciona como um sistema de encanamento: nos dois o conteúdo deve poder fluir. Se houver algo que fica parado, este algo vai criar pressão interna, e se nada for feito as consequências negativas são inevitáveis.
No encanamento o que circula é água. Na psique o que circula é libido, ou energia psíquica, cuja principal forma de manifestação são as emoções.
Como no encanamento, também no sistema psíquico não importa o que está bloqueando a passagem. Que seja uma barra de ouro ou um dejeto que bloqueia o encanamento, o resultado será o mesmo: todo o sistema entra em desequilíbrio e uma certa hora irá explodir.
Os bloqueios no sistema psíquico ocorrem quando não nos permitimos expressar nossas emoções. No lugar de expressá-las, as reprimimos. A repressão cria o bloqueio. A repressão pode ser tão profunda ao ponto de nem mais nos darmos conta de estarmos reprimindo e muito menos do que estamos reprimindo. Quando isso ocorre, a repressão se torna supressão. Na repressão temos consciência de reprimir, e reprimimos inicialmente de forma intencional. Na supressão já perdemos a consciência, e passamos a fazer automaticamente. Desta forma, podemos fingir que “está tudo bem”.
Entretanto, em qualquer um dos casos as consequências são visíveis no dia-a-dia. Uma das reações mais comuns é a ansiedade.
A ansiedade é uma condição de insegurança e medo interiores que não se consegue vincular a algo de específico. Quando se tem medo da altura pode-se evitar as alturas e assim não sentir medo. Mas quando não se sabe do que se tem medo e o que deixa inseguros, não se tem como resolver o sintoma. Isso gera aquela sensação de estar sendo assediados internamente o que produz uma sensação psicológica de assustadora desestabilização.
Esta condição é o resultado de uma profunda alienação de si mesmos, que acontece porque não se quer ver, encarar, enfrentar o material reprimido/suprimido. E não se quer ver porque não se quer aceitar.
Não aceitar que fora está chovendo não vai impedir que você se molhe. Assim, a não aceitação do material reprimido não muda em nada a realidade psíquica. Aceitar ou não é uma questão do ego. A realidade continua acontecendo da mesma maneira. Os sintomas continuam iguais e, aliás, por causa da negação/rejeição, se tornam, na verdade, mais fortes. O que faz com que a pessoa tente se alienar ainda mais do que sente, até o ponto de viver como que em uma pequena ilha com medo de dar qualquer passo fora do conhecido porque sairia de sua “zona de conforto”.
Um dos recursos que pessoas nessa condição adotam para aguentar esse nível de ansiedade e continuar evitando seus conteúdos interiores é o uso de drogas. As drogas fazem baixar a percepção da tensão interna. A tensão continua, mas a pessoa não a percebe. É literalmente como um anestésico que se infiltra entre a consciência do ego e a psique, uma almofadinha que sufoca a clareza de percepção interna da pessoa de modo que esta possa continuar não sentindo e não vendo. “E a vida continua”.
Esse recurso, entretanto, tem somente validade imediata. Após o efeito da droga passar, a pessoa vai se perceber mais fraca do que antes, o que a leva a assumir mais drogas para manter o efeito analgésico. Enquanto isso, sua ansiedade irá necessariamente aumentar, porque ela está novamente fugindo.
Toda vez que fugimos de algo que nos angustia ou amedronta estamos dando a nós mesmos uma declaração de incompetência. Psicologicamente falando, nos sentimos derrotados. Isso incentiva o uso da droga como refúgio contra mais essa verdade: que somos incapazes de nos sustentar sozinhos, sem muletas artificiais. Enquanto isso, no plano físico, a droga envenena o corpo – produzindo uma fraqueza física. No plano relacional e social, polui até a destruição as relações mais queridas – produzindo uma fraqueza social. E assim se engendra a assustadora bola de neve do vício.
A única solução que interrompe o inevitável desastre é a de retomar a responsabilidade sobre si mesmos e sobre os próprios conteúdos psíquicos. O que significa aprender a encara-los um por um.
Há muitas verdades que se teme saber, há sentimentos que se teme sentir, há desejos e necessidades das quais se foge. Todos esses conteúdos são negados por dois motivos: um, porque questionam crenças e fantasias às quais estamos apegados; e dois, porque os percebemos como tsunamis que iriam nos derrubar se lhes abríssemos as portas. Mas, é garantido que todos eles, uma vez integrados, também levariam a uma mudança para melhor.
No primeiro como no segundo caso, precisa-se de coragem e honestidade. A terapia é o principal instrumento para desenvolver aquela força interior e aquela clareza mental que permitem o enfrentamento dos conteúdos interiores. E, a partir desse processo, desencadear nosso desenvolvimento como sujeitos adultos, maduros e responsáveis capazes de dar sua contribuição positiva ao mundo, começando em família.


Adriana Tanese Nogueira


Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321



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