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A DOR QUE NOS FAZ HUMANOS

Ninguém gosta de sofrer e todos evitamos ao máximo a dor. Entretanto, vemos a toda hora filmes que retratam dor e sofrimento, feridas, sangue, perdas, angústias, solidão, desespero. Por que será?
Porque precisamos nos ver com nossas dores, as muitas que silenciamos nos anos. Precisamos olhar para as lágrimas alheias para entrar em contato com aquelas que não derramamos. Precisamos ver a agonia fora representando a nossa, reprimida.
Não faz sentido nos perguntar: se desejamos tanto a felicidade, como é que a maioria dos nossos filmes retratam exatamente aquilo do qual fugimos?
A resposta é: porque aquilo que foi reprimido, mesmo em silêncio, nos pressiona para que o encaremos e resolvemos. Aquilo do qual se escapa clama seus direitos a fazer parte de nossa vida. Porque faz, não importando se for agradável ou não. Podemos virar a cara para o outro lado e fingir que não vemos e não sentimos, mas o que evitamos continuará lá, imperturbável até o final dos tempos. E, além do mais, continuará reaparecendo em nossas vidas em outras formas, de novas situações, em diferentes disfarces.
Ver projetado sobre a ela o que afogamos em algum canto da alma não vai resolver nosso estado, se assim fosse já estaríamos todos no paraíso dada a quantidade de filmes violentos e cheios de sofrimento que tem por aí.
Na tentativa de nos proteger da dor, até porque precisamos levar a vida adiante, nos endurecemos. Ao reprimir o sentimento de sofrimento, nos tornamos mais duro. Apesar disso ser às vezes necessário, fazendo parte do desenvolvimento saudável de um ser humano rumo à maturidade, quando é feito de forma inconsciente e automática não é nunca bom.
Existe um conto para crianças acerca de um menino que não queria sentir dor e pediu para alguma fada para que realizasse seu desejo. Um dia, o menino serrando uma madeira foi serrando junto a própria mão sem perceber!
Ao reprimir o sofrimento psicológico nós nos anestesiamos em geral. Repressão de sentimentos é de fato uma anestesia psicológica. Menos a gente sente, mais atordoados ficam nossos sentidos. Menos sentimos a nossa dor, menos sentimos a dos outros. Mais anestesiados estamos, mais insensíveis à dor e sofrimento dos outros estaremos. Menos sensíveis a nós mesmos, menos empatia teremos para com os outros.
Encontramos aqui a raiz da psicopatia. O psicopata vive em um mundo seu, abstraído tanto de sua própria humanidade tanto da dos outros. É por isso que consegue fazer tanto mal.
Assistir filmes que retratam nossa psicopatia não vai ajudar-nos a sarar da doença. Assistir cenas que jamais faríamos na vida real, que inflacionam nossas dores e revoltas, não nos permite superá-las. Ao contrário, nos afunda sempre mais no mesmo lodo.
A única forma possível de curarmo-nos do sofrimento humano que partilhamos todos é o de encará-lo. É essa dor que trazida à tona nos faz recuperarmos nossa humanidade, começando com nós mesmos.
Começando com aprendermos a sermos mais gentis conosco. Menos julgamento e mais olhar límpido e objetivo. Menos crítica e mais reflexão crítica. Menos vergonha e mais honestidade. Assim como o amor, a dor nos faz humanos e a dor refletida, compreendida, integrada nos leva à maturidade e à paz.


Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA+1-561-3055321

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