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O MONSTRO INSIDIOSO E TRAIÇOEIRO DO ALCOOLISMO

Alcoolismo não é simplesmente a dependência de uma substância que leva a pessoa a precisar que ela chama de querer” – beber muito e constantemente.
Alcoolismo é uma problemática humana de caráter holístico. O ser inteiro da pessoa está doente, ou melhor, apresenta em grau elevadíssimo uma doença espalhada em graus diferentes em nossa sociedade.
Em primeiro lugar, o alcoólico, conforme Jack Trimpey, autor de The Rational Recovery (que podem encontrar em pdf aqui) afirma é governado pela busca incessante de prazer. Parece-me espelho de nossa sociedade. Infelizmente para ele, porém, o prazer está focado numa substância que, junto ao prazer, traz tamanhos desequilíbrios psicológicos, emocionais, relacionais e físicos que, para serem tolerados, requererem mais e mais álcool, num ciclo incessante e fatal de autodestruição.
Trimpey visualiza essa realidade interior do alcoólico naquilo que ele chama “The Beast”, a besta ou o monstro, que, diferentemente da Fera de “A Bela e a Fera”, não tem salvação. O monstro precisa ser totalmente subjugado. Mas como, se quem governa a vida do alcoólico é justamente esse monstro?
Segundo Trimpey, e segundo minha experiência clínica, existe junto ao monstro uma outra voz interior no alcoólico que busca saúde e que se dá perfeitamente conta do estrago que o alcoolismo provoca. Mas esta voz é fraca e a consciência do alcoólico não consegue ouvi-la ou se manter antenado nela. O monstro é forte demais.
E como funciona esse monstro?
Em primeiro lugar, na necessidade física de beber e por inúmeras razões: ora porque está feliz e “precisa” festejar, ora porque está deprimido e “precisa” se anestesiar, ora porque está entediado e “precisa” se distrair, ora enfim porque se está estressado e “precisa” relaxar.
Em segundo lugar, o monstro do alcoolismo se manifesta nos ataques violentos, nas reações exageradas e nas explosões a partir de detalhes que uma pessoa sã não consideraria dignos de tamanha ênfase,
Em terceiro lugar, o pior talvez, o monstro do alcoolismo altera a forma do alcoólico enxergar sua realidade e de se entender. As interpretações de fatos, sentimentos e situações são distorcidas num nível tão sutil e pérfido que é muito difícil de reconhecer.
É aqui que o monstro do alcoolismo mostra toda sua insidiosa e traiçoeira natureza. O alcoólico é mestre em transformar você em problema e se safar de qualquer responsabilidade. Ele tem uma enorme dificuldade em reconhecer seus erros, mesmo os pequenos. Mas como na vida estamos sujeitos a errar e nos desentender frequentemente e crescer depende de aprender conforme se vive, o alcoólico está preso a uma realidade estática que não pode ser questionado e, portanto, não pode evoluir. Na relação de casal, que é a mais problemática entre pessoas normais, imagem com um alcoólico, há inúmeras circunstâncias nas quais é preciso se rever e se entender com o outro. Mas o alcoólico não quer se enxergar e muito menos se rever. Viver com ele é como caminhar em terra minada. Qualquer que seja a situação, o alcoólico constrói um raciocínio perverso que tem como objetivo fazer de você a pessoa errada.
A dinâmica traiçoeira segue regularmente os critérios de:
1. Ocultar a responsabilidade do alcoólico em qualquer circunstância, mesmo que esta seria algo relativamente fácil de resolver.
2. Desviar o alvo da crítica de si para o outro da relação, geralmente, aliás, inevitavelmente, a esposa/o e, em segundo lugar, os filhos.
3. Manipular fatos, verdades, pensamentos e sentimentos de forma a enredar o outro ao ponto de fazê-lo duvidar de sua própria sanidade mental e verdade.
O nível de perfídia e enganação do qual o alcoólico é capaz está diretamente relacionado ao seu nível de inteligência. Quanto mais inteligente mais insidioso e traiçoeiro ele sabe ser – e ele será.

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321



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Comentários

  1. Adriana, por gentileza, não consigo abrir os textos anteriores com o marcador alcoolismo. Há indicação de 13 textos com este marcador mas abrem somente 3.
    Seus textos ajudam muito. Tenho um caso de alcoolismo na família e não sabemos como ajudar alguém que diz que quer ajuda mas na verdade não aceita ajuda de ninguém. O que podemos fazer? Obrigada. Patrícia K.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Patrícia, é estranho, porque eu consigo abrir. Mas seguem:
      1) http://www.psicologiadialetica.com/2011/03/alcoolismo-vicio-ou-doenca.html
      2) http://www.psicologiadialetica.com/2013/03/vencendo-o-alcoolismo.html
      3) http://www.psicologiadialetica.com/2016/11/os-filhos-de-pais-bebem-demais.html
      4) http://www.psicologiadialetica.com/2011/03/o-que-fazer-com-um-pai-alcolatra.html
      5) http://www.psicologiadialetica.com/2013/03/o-que-fazer-com-um-marido-alcoolatra.html
      6) http://www.psicologiadialetica.com/2010/02/alcoolismo-entre-vitimas-e-carrascos.html
      7) http://www.psicologiadialetica.com/2011/08/alcoolismo-busca-de-sentido.html
      8) http://www.psicologiadialetica.com/2016/06/o-que-fazer-com-um-marido-alcoolatra-2.html
      9) http://www.psicologiadialetica.com/2013/09/a-fraqueza-do-alcoolico-e-forca-de-sua.html
      10) http://www.psicologiadialetica.com/2011/05/alcoolismo-culpa-e-cumplicidade.html
      Só esses encontrei, mais o texto acima.
      Abraço!

      Excluir
  2. Ola, li bastante seus posts e me identifiquei. Estou casada ha 3 anos com um homem maravilhoso (59 anos), toda mulher queria um desses e no primeiro ano descobri que ele e alcoolatra e o vicio ja esta ate afetando a saude dele. Ele me agride verbalmente quando bebe e me faz sentir culpada, me xinga de todos os nomes. Eu falei pra ele procurar ajuda e ele me diz que nao esta mais bebendo porque ele sabe que nao pode mais beber por causa do figado. Ele tem agido normal mas, eu sei que ele esta bebendo escondido. Eu nem tento conversar, me faco de besta para nao causar brigas. Se eu pedir o divorcio ele nao vai aceitar, voce acha que e certo eu sair de casa sem avisar? Obrigada... muita luz pra voce

    ResponderExcluir

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