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MULHER MARAVILHA – O FILME E A REALIDADE

O que perturba a personagem do filme Mulher Maravilha, a Diana, é a maldade trazida pelo deus da guerra, Ares. O que perturba o feminino é a brutalidade do masculino.
Na mitologia grega, Ares era o deus do combate corpo-a-corpo, da fúria cega necessária para conseguir guerrear nas condições da Antiguidade. Não era como hoje que se aperta um botão ou que se solta uma bomba do alto sem ver nosso inimigo olho no olho. Naquele tempo era preciso outro tipo de intensidade, de força física e emocional para conseguir lutar. E, no frenesi da guerra, os homens eram levados por uma força irracional e cega que lhes permitia encarar a morte de frente, e a que chamavam de Ares. Ares não era mau, era simplesmente parte da vida, não tramava contra a humanidade e não influenciava diabolicamente os pensamentos dos homens. Esta foi identificada como a atuação do diabo cristão, o qual nadinha tem a ver com a mitologia grega.
O diabo, como a própria palavra diz é quem separa (dia = separar). O conflito é separação, e é o oposto do amor. A deusa do amor, a sedutora e delicada Afrodite, era a amante de Ares quase querendo indicar que a brutalidade masculina só consegue ser amansada pela suavidade feminina (ver Ginette Paris, Meditações Pagãs).
Mas quando a brutalidade é demais, quando já tomou proporções globais, outra deusa parece entrar em ação, e está é Ártemis. Ártemis é a mais pura e feminina de todas as deusas da mitologia grega, representando a natureza indómita e incontaminada que habita em toda mulher e que clama por justiça: justiça por elas, como também animais e pela terra, pelos instintos e essência humana que nos une. Este é o aspecto da deusa encarnado pela Diana do filme. Diana é a versão romana de Ártemis, que, entretanto, nada tem a ver com as Amazonas...
Diana quer por um fim a toda a guerra, mas não lutando para vencê-la para vencer os maus. Ela quer eliminar o cerne da questão, a fonte de toda a guerra, que no filme é o deus Ares (sic!).
O profundo grito de revolva feminino, que nasce da ancestralidade de toda mulher, radical e intenso, se manifesta nesse filme na determinação com que Diana persegue o inspirador de toda discórdia, Ares. Ela permanece fiel e irredutível a seu propósito apesar de não ser compreendida pelos homens comuns que reiteram que a guerra tem partes, e que matar um indivíduo não vai termina-la.  
De fato, é assim. Mas Diana não está falando numa “pessoa”, mas no princípio de todo mal, que por não ser material é de fato espiritual (mitológico). Ela quer por um fim disso. E assim faz. Reunindo toda sua força e mais do que imaginava ter ela extirpa de vez o mal
O filme espelha o grito de revolva silencioso que na vida real muita, se não toda mulher, tem dentro, mesmo que de forma inconsciente. Todas conhecemos o abuso, a violência, a dominação. Infelizmente, porém, não podemos ser ingênuas e precisamos ir além. Justamente por ser um princípio espiritual, o mal – o que quer que este seja na prática – pertence a todos nós e nos cabe assumi-lo, reconhecê-lo e transformá-lo individualmente. Sobretudo, precisamos, como mulheres reconhecer o Ares em nós quando nos sabotamos e permitimos que nos desvalorizem e nos diminuam, ou quando nossos filhos não nos respeitam, quando os mimamos e criamos os meninos que um dia irão machucar outras mulheres...

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Comentários

  1. Estava agora mesmo olhando algumas imagens na internet antes de entrar aqui no blog . Uma das imagens ue chamou minha atenção era parecida com essa do blog: algo como uma superfície aquática, um espelho refletindo o céu. Ficou linda essa versão do blog, Adriana, e a imagem também.
    Sei que a origem de Diana Prince está ligada ao movimento sufragista. Em algumas histórias dos quadrinhos, Diana mostra essa face feminista. O sucesso do filme me deixou feliz. Embora seja tudo ficção é legal que se façam bons filmes de heroínas assim como se fazem filmes de heróis. E o filme da Diana superou o de muitos heróis.
    Amei a análise do filme, Adriana. Principalmente no que se refere a Ártemis e seu grito contras as injustiças . Entre as olimpianas é minha favorita juntamente com Perséfone e Atena.

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    1. Oi querida, não sei quem é, pois teu email não aparece aqui, mas tudo bem, nos conhecemos. Pelo jeito, estamos lidando com uma saladona... que no final nos leva onde precisamos: ao grito de libertação, emancipação, revolta das mulheres e do feminino. Que o amor vença - unido à justiça, porém.

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