POR QUE AS CRIANÇAS PARAM DE COMER?

Comida: tão necessária fisicamente e tão cheia de outros sentidos. Isso porque a comida está vinculada diretamente às nossas emoções.
Não ter apetite muitas vezes não significa não ter fome, mas não ter vontade de comer, vontade de colocar alimentos dentro de nós. E esta é uma metáfora que precisa ser compreendida bem por mães e pais que acabam por se sentir desesperados com seus filhos que de uma hora para outra (assim parece a eles, de qualquer forma) param de comer – inclusive as “porcarias”. Não adianta fazer sermões, tentar seduzir com outras coisas, ameaçar, barganhar, chorar. Primeiro, é preciso entender o que esse gesto significa.
E começamos com entender o que é uma metáfora. Quando, por exemplo, dizemos “estou com borboletas no estômago” não estamos afirmando que temos reais borboletas no estômago, mas usamos uma imagem, a de borboletas voando pelo nosso estômago, para representar uma emoção. No caso, a emoção do estar na ansiosa e feliz expectativa por algo de bom que nos anima e alegra. Nosso estômago está de verdade tenso, mas se trata daquela tensão leve como que da vibração de delicadas asas de borboletas contra as paredes de nosso estômago, o qual é por sua vez símbolo porque é tanto o estômago real como representante de nossa alma, de nosso coração. Numa só imagem queremos dizer muitas coisas, tanto que o estômago está tenso, mas que não é a tensão dolorosa do medo, que trava e petrifica, nem o espasmo do susto, como que estamos alegres e que sentimos a agitação interna como um leve borboletear que nos acaricia e nos eletriza.
Comer, assim como não comer, também é uma metáfora. Comemos o mundo que está à nossa volta. Os alimentos são pedaços do mundo externo que botamos para dentro, que ingerimos, assimilamos, integramos. Precisamos dessa troca para continuarmos vivos e nos desenvolvermos; toda mãe zela por isso.
Mas agora... e se não quisermos introjetar esse mundo? Se os conteúdos externos não fossem comestíveis para a jovem alma que, portanto, os rejeita?
Os alimentos precisam nos agradar, não só ao paladar, mas à alma. Eles representam mais do que comida material, representam o mundo material e não do qual vêm. Comer comida é comer o mundo, mas quando o mundo não é gostoso, não atrai a alma temos duas opções: ou comer demais ou não comer. As crianças que param de comer são as mais sensíveis, são aquelas que estão, lá no fundo de si mesmas, inconscientemente, se questionando a respeito de sua realidade: família, escola, sociedade.
Dependendo da idade e da maturidade da criança, o questionamento pode ser mais ou menos ligado à família, mas em todo caso se trata de um jovem ser que começou a vislumbrar o “mundo”: sua mãe, seus pais, seus colegas, o sistema escolar, os adultos, a sociedade... E não está feliz com o que vê e sobretudo não sabe como digerir essas coisas. Faltam-lhe as condições para assimilar esses conteúdos pois ele não tem os “dentes”, outra metáfora para representar as condições cognitivas e emocionais para processar uma experiência, interna ou externa. Como entender isso? Como aceitar aquilo? O que significa isso? O que vou fazer com aquilo? Como acreditar nisso e viver aquilo? Como posso gostar disso e lidar com aquilo? Como viver?? Afinal: como viver?
As crianças enxergam os adultos, seus pais. Elas percebem a realidade deles, assim como vão aos poucos sentindo mais claramente a si mesmos como individualidades. Segue naturalmente a pergunta sobre como inserir-se nesse mundo. Como lidar com tantas variáveis, algumas cruéis, difíceis, tristes. Como fazer?
Como comer esse mundo sem ser por ele comidos?

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

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