Pular para o conteúdo principal

SER MULHERES - 08/03/2018

Ser Mulher, escreveu Oriana Fallaci, a mais famosa jornalista italiana e escritora reconhecida, é tão fascinante. É uma aventura que requer tamanha coragem, um desafio que não termina nunca.
Mulheres criadoras de pessoas, de ideias, de projetos, de sonhos. Mulheres que buscam sua identidade, que conversam, desabafam, brigam e choram. Mulheres que criam filhos sozinhas. Mulher que lutam por relações impossíveis, que acreditam, torcem, estão focadas. Mulheres, esteio moral, afetivo e emocional. Mulheres que agregam e mantêm junto. Mulheres que aguentam o inimaginável por seus filhos. Mulheres que ganham coragem inimaginável por seus filhos. Mulheres tão pouco compreendidas até por elas mesmas.
Freud em seu Três Ensaios sobre a Sexualidade se perguntava a respeito da feminina inveja do pênis. O que as mulheres queriam afinal? Jung em sua autobiografia, Recordações, Sonhos e Reflexões refletia sobre o significado da trindade feminina representada em mitologia e na simbologia das três luas, do ciclo lunar, das deusas.
Homens tentando entender o feminino. Numa sociedade na qual quem tem poder social, de escolha e de autonomia são homens, os que têm um pênis, é inevitável que quem queira liberdade de escolher e fazer sinta inveja deles. Mas não é só isso. A inveja do pênis reflete o desejo feminino por um pensamento próprio, original e leal para com sua vivência. A mulher tem sido pensada, apreciada, admirada ou julgada, raramente se pensou. O símbolo fálico representa o Logos, a função pensamento. Invejá-la representa o desejo inconfessado de ser sujeito ativo, protagonista de sua vida, criadora de nova cultura, conhecimento, interpretações do que é ser humanos e estar vivos.
O masculino das mulheres, chamado por Jung de animus, reproduz ao seu estado natural a cultura coletiva na qual a mulher foi criada. Ele repete o pensamento do grupo. Não é produção original dela. E isso porque a função principal da mulher tem sido a do Eros (Jung), que é a função de relação. As mulheres têm posto mais ênfase em se relacionar e em criar relações do que em pensar essas relações, refleti-las, questioná-las, muda-las, transformá-las a partir de suas necessidades mais profundas. Elas chamam ainda hoje isso de “egoísmo”. O pensamento feminino, assim, tem servido para justificar as relações.
Quando a mulher foca seu pensamento na manutenção das relações, ela não pode venturar-se por novos caminhos e, sobretudo, ela não está consigo. A relação com o outro é prioridade. Afinal, a ela tem sido delegado o papel de ser esteio da sociedade, da família e da relação de casal. Se ela não estiver ativamente dedicada a fazer essas redes de vínculos funcionarem ela pode quebra. Nessa tarefa, muitas vezes exaustiva, as mulheres passam boa parte de suas vidas.
Cresce o número de mulheres que estão esgotadas, sentem-se vazias e desconectadas de si. Seu desafio é: amar a si e ao outro igualmente. Desafio que nunca poderão solucionar de verdade sem incluir a si mesmas nas relações. Incluir o todo de si mesmas, não um pedaço. Ou seja, esse é o desafio feminino que irá abrir uma nova forma de amar e um novo modelo de relação. A sociedade está sedenta por esta mudança.
Na carne muda está presa a voz das mulheres. Na matéria diária de palavras não ditas, olhares disfarçados, silêncios lotados, olhar sério e paciente, sorrisos para esconder a dor, sacrifícios inúmeros e regaço sempre disponível está o embrião do pensamento feminino que precisa nascer graças àquelas mulheres que se derem ao trabalho de olhar para dentro de si.
Pausar o mundo.
Pausar a necessidade de atender ao pedido do outro.
Enxergar-se. Ouvir-se. Perceber-se.
Sem culpa.
Conhecer-se.
Aprender a se respeitar.

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

Manipuladores

Adriana Tanese Nogueira
Há dois tipos de manipuladores: os maquiavélicos e os “bonzinhos”. Os primeiros sabem o que estão fazendo, os segundos “não sabem que sabem”. em ambas as categorias há uma gradação de consciência que vai da nível mais consciente (a pessoa está perfeitamente desperta) para aquele parcialmente ou totalmente “distraído”, que é de quem faz “sem perceber”.
O maquiavélico em sentido estreito é aquele indivíduo que, determinado em alcançar sua meta, toma as medidas necessárias mesmo que tenha que enganar o outro, porque, como ensinou Machiavel, “o fim justifica os meios”. O manipulador maquiavélico é esperto,  oportunista, calculador e rápido no agir. Como, porém, nem todo mundo é dotado da inteligência afiada de um Maquiavel, mas não deixa de ser oportunista, há muitas pessoas que manipulam os outros e as situações tentando, ao mesmo tempo, se escondendo de si mesmos. Se trata de uma complicada acrobacia mental que leva à neurose. É como se uma mão “não soubesse” o que …