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COBRANÇA E COMPLACÊNCIA

Todos conhecemos uma cobrança, tanto aquela no formato de um boleto a pagar como aquela que a expressão popular relaciona à exigência do cumprimento de uma tarefa, uma atitude, um comportamento.
Nesse segundo sentido, há a cobrança explícita (“Joãozinho, guarde os brinquedos. É a última vez que peço!”) e há a cobrança silenciosa (“Cheguei em casa cansada e o Zé me olhou com aqueles olhos de vítima, ficou quieto no seu canto. Mas como? Um homem de 40 anos se fazendo de coitadinho? Pois é... Eu tive que parar tudo, deixar o trabalho que tinha para terminar para depois – quando?? – e ir dar uma atenção para ele, dar um carinho...”).
A cobrança é declarada, explícita, quando ela é legítima (“Marta, cadê aquele projeto que era para entregar na segunda?”, “João, preciso do arquivo para amanhã, sem falta.”). A cobrança é “por baixo dos panos” quando é ilegítima, ou seja, quando a pessoa que está cobrando não assume sua necessidade, querendo te induzir a fazer o que ela quer sem ter que pedir. Não pedindo, ela não se responsabiliza enm sobre o que sente nem sobre o que fez você fazer. Entendeu como funciona?
Em ambos os casos de cobrança, há uma resposta que estraga tudo e se chama: complacência.
A complacência atua na direção contrária à cobrança: ela busca agradar, ir ao encontro, ficar de bem. As pessoas que não aguentam cobrar o que precisa ser cobrado são aquelas que precisam da aprovação do outro. 
Imaginem o que acontece num ambiente de trabalho ou mesmo em casa. Se você não cobrar do teu funcionário o que é tarefa dele fazer, o que ele é pago para fazer, o trabalho não será feito, ou será feito mal. Quem vai se beneficiar com isso? A preguiça do funcionário e as “boas relações” entre seu chefe e ele. O chefe será “querido” e a empresa como um todo perderá em qualidade e potencialidade de sucesso, o que no médio e longo prazo significa possível perda de trabalho para todos, chefe “querido” e funcionário desleixado.
Em casa, a complacência dos pais diante dos filhos ensina a falta de compromisso com as responsabilidades, incentiva a preguiça e o egoísmo e tira a autoridade dos pais. Autoridade quer dizer liderança. Sem esta quem dirige a família?
A complacência diante da cobrança ilegítima, aquela “por baixo dos panos”, está baseada novamente no medo de perder a relação caso não se faça o que o outro nos pede sem pedir. Nesse caso a complacência atua atendendo a cobrança silenciosa e, assim fazendo, endossando o comportamento manipulador da outra pessoa, deixando as próprias responsabilidades de lado e permitindo que o outro não assuma as dele.
Novamente, o ponto fraco se encontra na necessidade incontrolável de aprovação e de aceitação. Quanto mais você precisar do beneplácito e da afeição dos outros menos poderá exercer um cargo de liderança, pois você estará à mercê dos caprichos alheios. 
A complacência é uma atitude a ser usada em doses homeopáticas e com sabedoria, tendo conhecimento do contexto no qual pode ser útil e da pessoa que dela irá se beneficiar. Da mesma forma, a cobrança requer juízo, mas numa cultura permissiva como a brasileira, precisamos de mais cobrança saudável e legítima e de menos complacência. O objetivo é promover o desenvolvimento individual na direção da responsabilidade pessoal e dos interesses que visem o bem-estar coletivo, no lugar da imediata conveniência tão comum quando falta maturidade e sabedoria.

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

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