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AMOR, DESFEITA DO EGO

Numa sessão individual que complementava o trabalho terapêutico que o casal estava fazendo comigo, o marido chegou à conclusão de que amar é o que acabava com ele. Se não amasse não estaria com ela, já que havia tantas brigas, se não amasse estaria mais tranquilo. Pois é, sintetizei: amar é a desfeita do ego. E ele nunca mais apareceu. Não quis “perder”.

A dimensão psicológica do amor é uma função feminina porque como bem identificou Jung, o feminino é Eros, ou seja a função de relação. Relacionar-se quer dizer abrir-se ao outro. As mulheres têm exercido esse papel por milênios. A maternidade treina para esta abertura, mesmo uma mulher sem filhos tem em si a genética e os arquétipos prontos para serem ativados e agir em qualquer idade e situação. Está inscrito em nós. O homens também tem sua dose de feminino, quem mais quem menos (e isso nada tem a ver com homossexualidade), mas sua identidade se colocar em outro lugar, no pensamento, nas ideias (cultura, mentalidade, mente, racionalidade, ideais, preconceitos... etc.)

A abertura ao outro (amigos, familiares, filhos, marido, esposa, etc.) implica que devemos encontrar um equilíbrio entre as exigências naturais de nosso eu e a exigências naturais do eu do outro. O ego é uma dimensão psíquica em direta oposição ao amor pela simples razão que o ego está construído para se manter distinto e separado a despeito das invasões internas (emoções) e externas. O ego é como uma torre projetada para não cair. Quanto mais sólidas forem suas paredes mais firme será.

Mais grossas suas paredes mais inalcançável o que está dentro será. Dentro está a subjetividade. Um ego forte é um ego mais capacitado para determinadas tarefas, sobretudo em tempos de necessidade, guerra, luta, durezas e desafios que exigem vencer, muitas vezes a qualquer custa porque é “vida ou morte”. O ego forte é um ego conquistador no mundo material.

Um ego “fraco” é como uma torre com paredes “porosas”: troca informações com o ambiente mas também pode ser invadido facilmente. A porosidade permite abertura, portanto fertilização. Permite não só receber como dar, pois dentro da torre de marfim nada entra mas também nada sai. A troca favorece o crescimento pessoal e estimula a capacidade de discernimento, pois sem tudo que “entra” é alimento, há também “bactérias”. 

Ao se relacionar com o ambiente, o ego pode ficar fragilizado. Se deparará necessariamente também com equívocos e desavenças, poderá cair doente ou abatido. Enquanto isso o ego forte em sua torre de marfim conquista o mundo, insensível (ou assim parece) a tudo. Ele passa por cima dos “fracos”, despreza a sensibilidade porque esta “enfraquece”. Continuará assim até ter a sorte ou azar, depende do ponto de vista (se da evolução ou do próprio ego), de amar.

O amor rompe as separações. O amor invade. Toma o liderança. O amor coloca o ego numa posição de “fragilidade” porque obriga a sentir. O amor é uma desfeita do ego. Penetra  pelas paredes mais grossas e coloca o ego-egoísta com as costas contra suas paredes de marfim. E aí, meu cara? O amor obriga a aprender a abrir-se ao outro, a olhar para além do próprio umbigo.

De dentro de sua torre de marfim, o ego se “relacionava” no sentido utilitário: o outro existe para lhe ser útil. No amor, o outro é Sujeito. O outro tem valores, prioridades, necessidades. O outro é Outro, incontrolável e não manipulável.

Esta é a crise final. Consuma-se uma batalha fatal: vida ou morte do amor. Vida ou morte da torre de marfim. E o ego? Transformação ou estagnação.



Adriana Tanese Nogueira


Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Comentários

  1. Olá Adriana, e quando uma mulher não se encaixa nesse papel de relacionar-se
    , de abrir-se ao outro, de conseguir um equilíbrio entre o próprio eu e o eu dos outros ? E quando essa mulher cresceu sem a figura paterna (meu pai morreu eu tinha 5 anos), sem irmãos, teve que sobreviver para manter casa, mãe doente, desde os 14 anos e hoje tem 57 anos. E quando parece que todas as atitudes e comportamentos dessa mulher estão mais para os papéis "masculinos" que os "femininos". Parece que sou o tempo todo cobrada pelas posturas "femininas": sacrifício, colocar o outro à minha frente, eficiente no serviço doméstico, paciente, dócil, submissa. Até consigo exercer muitos desses papéis mas não o tempo todo e não é totalmente natural. Como você menciona no texto, sinto que minha identidade está muito mais ligada ao pensamento, às idéias à vida ou morte da sobrevivência. Patrícia.

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