Pular para o conteúdo principal

ANÁLISE DO FILME THE INCREDIBLES 2

Mitos são sonhos que emergem do inconsciente coletivo. Filmes são projeções da consciência coletiva. No mito se manifesta uma realidade psíquica que está em formação, no filme se projeta o que já foi alcançado e que ganhou suficiente adesão social para se dizer “real”. Porque só vende aquilo com que as pessoas podem se identificar.
No The Incredibles 2 temos uma combinação bem-sucedida de elementos que agrada o paladar de todos sem ferir a “susceptibilidade do grupo dominante”, motivo pelo qual conseguiu mais de 504 milhões de dólares em apenas 24 dias de lançamento nos EUA.
O que é a “susceptibilidade do grupo dominante”? Refiro-me aos homens. O filme é super divertido para nós mulheres, em particular para nós mães, e por dois motivos.
Em primeiro lugar, porque nos coloca finalmente sob os holofotes: é à mulher, mãe e esposa, que é feito o convite para ser a super heroína que vai tornar os super-heróis novamente legais (pois eles foram colocados na ilegalidade, e veremos o significado simbólico disso); o marido é preterido à ela. Onde já se viu isso, gente?? Novidade histórica! E ainda por cima, o filme mostra direitinho o orgulho, o desgosto, o choque que ele tem que engolir para ser um marido politicamente correto e, portanto, aceitar a situação e apoiar a esposa. Terminados estão os tempos em que os homens estão sempre por cima, são sempre os escolhidos, sabem tudo, fazem tudo, são, enfim, as estrelas do show. A consciência coletiva já superou esse estágio. Isso não quer dizer porém que todas as realidades de casal espelhem essa nova consciência, mas no geral está assumido que as mulheres podem são as heroínas e poderosas.
Em segundo lugar, podemos rir à vontade diante da dificuldade dEle de cuidar dos filhos. Enquanto nós mulheres aprendemos a fazer os mesmos trabalhos dos homens, eles ainda não sabem o que tem sido trabalho nosso há séculos: cuidar dos filhos. Mas, como diz a estilista da família Incredibles, “Saber ser bons pais é um trabalho para super-heróis.” E é mesmo! Bons pais são super-heróis.
Assim, enquanto ela captura vilões, descobre tramas e armadilhas, vence obstáculos e luta como uma leoa, ele processa seu orgulho ferido, se conscientiza de sua realidade, a aceita e vai estudar matemática para ajudar o filho. Lida com a crise da filha adolescente em briga com seu ser diferente e o bebê (como todo bebê) revela seus inúmeros poderes. Como administrar e educar os poderes desse novo ser? Este é o maravilhoso desafio dos pais. Ouço Freud nos lembrar, “Este é o ‘perverso polimorfo’ do qual falava! As crianças têm poderes poliformos que são ‘perversos’ porque não educados, não direcionados.” Como o bebê do filme. Simpaticíssimo, a propósito.
E agora uma palavra sobre tornar legais os super-herói que é o fio condutor da trama do filme. Super-heróis são os que têm poderes. A pessoa intuitiva numa sociedade racionalóide “tem poderes” (que assustam, como círculo assusta os quadrados). O aluno realmente inteligente numa escola padrão que ensina a memorizar, tem poderes (que incomodam). A criança perceptiva e sensível tem poderes (que atrapalham as mentiras dos adultos). E assim vai. Todos temos poderes quando vivemos em contextos limitantes. Devolver a legitimidade a esses poderes é saudável e em sintonia com um projeto maior, que é a evolução da consciência humana.
Só uma coisa o filme ainda mostra que falta: falta legitimar, aceitar a apoiar a  genialidade feminina. O “mau” da história é uma mulher genial que vive às sombras do irmão, grande vendedor do “sorriso-Colgate”, conquistador do palco.
Na consciência coletiva, o gênio ainda é exclusividade masculina. Mas um dia, a gente chega lá.

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

Manipuladores

Adriana Tanese Nogueira
Há dois tipos de manipuladores: os maquiavélicos e os “bonzinhos”. Os primeiros sabem o que estão fazendo, os segundos “não sabem que sabem”. em ambas as categorias há uma gradação de consciência que vai da nível mais consciente (a pessoa está perfeitamente desperta) para aquele parcialmente ou totalmente “distraído”, que é de quem faz “sem perceber”.
O maquiavélico em sentido estreito é aquele indivíduo que, determinado em alcançar sua meta, toma as medidas necessárias mesmo que tenha que enganar o outro, porque, como ensinou Machiavel, “o fim justifica os meios”. O manipulador maquiavélico é esperto,  oportunista, calculador e rápido no agir. Como, porém, nem todo mundo é dotado da inteligência afiada de um Maquiavel, mas não deixa de ser oportunista, há muitas pessoas que manipulam os outros e as situações tentando, ao mesmo tempo, se escondendo de si mesmos. Se trata de uma complicada acrobacia mental que leva à neurose. É como se uma mão “não soubesse” o que …