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O MAL É PARA OS FRACOS

Esbravejar, reprimir, bater, excluir, caluniar, mentir, passar a perna, ser egoístas e interesseiros: é fácil. Ceder aos instintos mais baixos que todos temos, é fácil. Usar a força física, social, política e monetária para ficar por cima, se sentir alguém, “justos e puros”: é fácil. 
É fácil porque não requer a luta interior, evita o processo de conscientização, elaboração e integração do próprio lado sombrio. Deste confronto nasce a escolha moral consciente. Nasce O Homem, como novo paradigma humano. Basear a própria postura num sistema dado de valores, o que significa numa autoridade externa é para os espíritos fracos que não têm a capacidade ou a coragem para desenvolver seu próprio pensamento. Pensar com a própria cabeça e ir mais fundo não é fácil, por isso é muito mais comum encontrar aquela atitude de complacência e de satisfação consigo que nasce da ignorância.
Ignorância também é uma fraqueza. A ignorância a respeito de nós mesmos nos leva a acreditar que estamos acima de certas situações da vida. A ignorância leva ao medo. Quem não trilhou a jornada interior até o fim se entrega ao uso de rótulos extraídos de livros de auto-ajuda e de pseudo-psicologias, muitas vezes de cunho religioso, para nos se sentir eximido de ter que fazer uma séria revisão interior. As formas como uma pessoa pode se auto-enganar são inúmeras e surpreendentemente criativas.
É fácil fugir de si, deixar de se ver. Mas a verdade é que o mal se encontra dentro da gente, é parte desse projeto humano ao qual todos participamos, e cabe a cada um de nós assumir sua parte e transformá-la. O mal não está fora da gente porque não existe um “fora”. 
Para sermos mais fortes do que o mal é preciso nos conhecer. Desenvolver o autoconhecimento ao ponto de saber sem fingimentos de onde vêm nossos pensamentos e sentimentos, de que forma e por que tendemos a esta ou àquela opinião e posicionamento, e o que de nós está no outro para o qual apontamos.
Para sermos mais forte do que o mal precisamos “nos possuir”. Sairmos da condição de joguetes inconscientes nas mãos das “autoridades” externas – quaisquer que sejam. Significa assumir as nossas responsabilidades e trabalhar o dentro tanto quanto trabalhamos o fora. Tanto é investido na construção de uma casa, na posse de bens, na criação de uma carreira. E dentro? E a nossa individualidade? Os nossos valores? Quais crenças nos movem? Para onde estamos indo? Para a cova com uma boa conta bancária? Qual é o sentido das nossas vidas, de cada uma individualmente?
O mal funciona no atacado, desconfigura o individual e o transforma num reprodutor de sentimentos, emoções e instintos que não necessitam de reflexão crítica, de consciência e de esforço para serem atuados. Por isso, o mal é fácil. Além do mais, ele encontra sempre apoio em alguma instância, tem sempre uma panelinha que o endossa, encontra-se facilmente quem também prefere o caminho fácil.
Não pensar demais é fácil, não ir além das aparências, deixar que outros “reconhecidos socialmente” nos guiem. Seguimos, assim, sem questionamentos desconfortáveis e podemos nos dedicar “às nossas vidas” que obviamente são limitadas ao nosso pequeno mundo, baseado no que nos dá prazer e evita o mais possível a dor.
Pensar dói. Sentir dói. Sair do casulo da inconsciência dói. Ser responsáveis dóis. Ser inteiramente humanos dói.
Evitar a dor e buscar o prazer é pegar o caminho fácil. A evolução da
humanidade aconteceu escolhendo o caminho mais difícil, o que requer grandeza moral e intelectual, e muita coragem – o que a mitologia do mundo inteiro chama de “O Caminho do Herói”. 

Adriana Tanese Nogueira


Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

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