Pular para o conteúdo principal

FILHOS DE MÃES DEPRIMIDAS

O que acontece com o desenvolvimento infantil quando a criança vive com uma mãe deprimida?
Uma mãe boa é aquela que responde adequadamente aos estímulos enviados pela criança, onde “adequadamente” quer dizer em sintonia com as necessidades da criança e de seu estágio de desenvolvimento psicofísico.
Mas uma mãe vive num contexto familiar e social. Não sendo uma entidade abstrata, um arquétipo a serviço da criança, é essencial incluir o ambiente no qual ela vive e as relações nas quais mãe e criança estão inseridas. Um ambiente familiar bom reconhece as necessidades da criança e as respeita, adequando-se a elas e favorecendo o seu crescimento equilibrado.
Um crescimento equilibrado significa que a criança tem a possibilidade de mergulhar em seu mundo simbólico e lúdico para explorar suas próprias potencialidades, seu ser interior. Somente desta forma ela pode se desenvolver uma personalidade autônoma, em dialogo criativo consigo e, portanto, com o mundo.
Quando a mãe e/ou os cuidadores da criança precisam dela para se estruturar, para organizar seu próprio mundo de afetos e emoções porque eles mesmos estão desestruturados, a criança aprende a priorizar as necessidades alheias para dar um suporte a quem deveria, ao contrário, dá-lo a ela. Assim a criança deixa de estar consigo e de desenvolver uma relação com seu próprio mundo interno para servir de muleta aos adultos à sua volta, mãe sobretudo mas pai também. 
Fazer com que os adultos estejam equilibrados se torna para a criança um objetivo indispensável para sua própria sobrevivência. Em fazer isso, porém, a criança vai se afastando sempre mais de si mesma e de sua autenticidade até perde-la. Por ser pequena demais para compreender e ter consciência da situação, seus movimentos, suas tendências, seus apelos internos permanecem inconsciente e vão moldando seu ser.
Tendo que “tomar conta” da atmosfera emocional à sua volta, a criança não pode ser espontânea, pois a espontaneidade só se manifesta quando estamos conectados conosco e despreocupados com o ambiente porque nos sentimos em harmonia com ele. Mas a criança que cresce preocupada com o equilíbrio emocional dos adultos não pode se permitir isso. Ela está constantemente antenada com o que está fora dela, com as necessidades alheias, as reações e humores inesperados e perde, assim, o seureferencial interno.
Perdendo a espontaneidade, ela perde seu verdadeiro Si-Mesmo, ou seja, sua autenticidade individual e, com ela, sua perspectiva criadora para a vida adulta.
As mães são as principais fontes do bem-estar infantil. Por isso mesmo, elas podem ser as principais fontes do mal-estar infantil também. Mas é preciso sair da análise psicológica isolada da díade mãe-criança para não cometer um crime contra as mulheres. Não temos como fazer psicologia sem incluir o contexto social no qual ocorrem as relações e as patologias,
Uma mãe deprimida é provavelmente uma mãe só, não amada e não cuidada. Uma mulher que não pôde se expressar. A maternidade consciente hoje exige duas importantes tomadas de consciência:
1. Que a mulher precisa cuidar de sua saúde mental, emocional e espiritual. Este é o pré-requisito indispensável para a maternidade ativa.
2. No processo de cuidar de si, ou seja, de curar as feridas internas e aprender a ouvir e atender às suas necessidades profundas, a mulher irá inevitavelmente ter que lidar e aprender a transformar a sua realidade externa, incluindo as suas relações mais próximas, começando com aquela com o companheiro e/ou pai da criança.
Aí, finalmente, completamos o círculo e somos justos com as mulheres. Ser mãe hoje é um desafio maior do que no passado: sabemos e sentimos mais. Falta aprender a criar uma realidade sob medida para mães e mulheres. 

Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

Manipuladores

Adriana Tanese Nogueira
Há dois tipos de manipuladores: os maquiavélicos e os “bonzinhos”. Os primeiros sabem o que estão fazendo, os segundos “não sabem que sabem”. em ambas as categorias há uma gradação de consciência que vai da nível mais consciente (a pessoa está perfeitamente desperta) para aquele parcialmente ou totalmente “distraído”, que é de quem faz “sem perceber”.
O maquiavélico em sentido estreito é aquele indivíduo que, determinado em alcançar sua meta, toma as medidas necessárias mesmo que tenha que enganar o outro, porque, como ensinou Machiavel, “o fim justifica os meios”. O manipulador maquiavélico é esperto,  oportunista, calculador e rápido no agir. Como, porém, nem todo mundo é dotado da inteligência afiada de um Maquiavel, mas não deixa de ser oportunista, há muitas pessoas que manipulam os outros e as situações tentando, ao mesmo tempo, se escondendo de si mesmos. Se trata de uma complicada acrobacia mental que leva à neurose. É como se uma mão “não soubesse” o que …