Pular para o conteúdo principal

MORNO, CONVENIENTE E TRISTE

Há casamentos baseados no interesse, há outros que nasce da paixão. E há aqueles que combinam uma ambígua mistura de afeto e conveniência. 
Quando o afeto é o cimento da relação temos de fundo um quadro onde estar juntos é interessante, ou seja conveniente. E nesta base se dá início à relação, quase que abdicando do amor, da paixão, como se não se acreditasse que fosse possível de encontrar ou se evitasse a entrega que o amor requer. 
A conveniência pode estar atrelada a uma série de razões, que não se relacionam necessariamente a mau caráter. Há muitas dificuldades na vida e, às vezes, a aliança com outra pessoa parece ser a única solução. Talvez não seja, mas é o que nos parece no momento. Geralmente, uma união dessas é de interesse de ambas as partes e há afeto entre elas. Ou melhor, há algum sentimento verdadeiro entre elas, que poderia até ser tácita e mútua gratidão. Entretanto, não é amor. E por este motivo não tem como durar.
Com o passar dos anos, as situações e dificuldades que toda relação íntima atravessa trazem desgaste e apatia. O acordo silencioso do começo uma hora começa a ceder. Entretanto, como ele foi mascarado por amor para que o casamento ocorresse, a pessoa não ousa admitir a si mesma a situação porque deveria reconhecer a importância real que o fator conveniência jogou na sua relação inicial com o outro.
O que acontece é que a pessoa não quer, de certa forma, perder a cara diante de si mesma. Ela mentiu para si e agora está difícil de assumir a verdade. É difícil admitir que agiu movida por interesses dos quais agora não sente mais necessidades ou que não valem o suficiente para sustentar um casamento. A pessoa descobre que gratidão e conveniência não levam necessariamente ao carinho, cumplicidade, intimidade e entrega que casar significa, e isso se reflete imediatamente na vida sexual. No sexo muitas verdades vêm à tona.
A vida então se complica porque essas verdades são negadas pela combinação maléfica moral (queremos nos sentir no certo e no bom) e medo (de que se pode perder ao sair da relação). As perspectivas de futuro se tornam nebulosas.
O afeto sincero mas superficial do começo se faz apatia. Com o tempo a insegurança do que fazer e como fazer aumenta. Demos poder a outra pessoa que não devíamos ter dado e nos sentimos fracos. Ao acreditar que uma relação se bases pudesse dar certo, entregamos nosso poder pessoal e agora está difícil de recuperá-lo. É como se houvéssemos depositado um "talismã da sorte" no outro, marido ou esposa. Esta situação paradoxal cria um círculo vicioso refletido naquela sensação de estar presos, e de levar a relação "empurrando com a barriga".
O que fazer nessa hora?
vAceitar o que é, ser honestos consigo. Este é o primeiro passo.
vCompreender os verdadeiros motivos, nossos e íntimos, que nos levaram a dar início à relação.
vPerceber como mudamos desde então, o que mudou em nós e por quê.
vDescobrir o que queremos hoje, a partir do que nos tornamos e do que sentimos verdadeiramente dentro de nós.
vComeçar a construir novas realidades, relações e atividades, mas também novos valores, objetivos. Em suma, uma nova visão de si.
vEnfim, tomar a coragem para dar o passo que construímos dentro de nós como o certo para nós.

-->
Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

POR QUE ESQUECEMOS DA INFÂNCIA

Adriana Tanese Nogueira

Em minha opinião, aceitamos com demasiada indiferença o fato da amnésia infantil - isto é, a perda das lembranças dos primeiros anos de vida - e deixamos de encará-lo como um estranho enigma. S. Freud, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana

Um dos motivos que, com certeza, provocam o apagamento de grandes partes da infância é o estresse vivido naquela época. No conto de fada que os adultos gostam de tecer a respeito das crianças consta que a delas seria uma época dourada, sem preocupações, contas para pagar, tensões, trânsito e relacionamentos difíceis. Balufas. As crianças sofrem e podem sofrer muito, e muitas delas têm uma vida do cão (estou falando de crianças "normais" vindas de famílias “normais”).
O fato delas não terem a consciência e o conhecimento de um adulto só piora as coisas, porque elas não podem dar nome ao que as machuca. Isto as confunde, as deixando ainda mais assustadas. Para pior as coisas e aumentar a perplexidade e confusão da crianç…